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Engenharia genética cria gado mais tolerante ao calor

11 de outubro, 2026

A união entre biotecnologia avançada e pecuária ganha força com pesquisas focadas em criar bovinos mais resistentes ao calor e em transformar métodos de reprodução assistida. Desenvolvidas por centros de excelência, essas soluções utilizam a engenharia genética para adaptar animais de alta performance a climas quentes e exploram células-tronco na criação de gametas em laboratório.

Resistência ao estresse térmico em raças de alta produção

O impacto das altas temperaturas e da umidade afeta diretamente a produtividade em regiões tropicais, subtropicais e até durante o verão em áreas de clima temperado, como no Sul do Brasil. Animais de origem europeia, a exemplo dos bovinos das raças Angus (voltada ao corte) e Holandesa (destinada ao leite), são historicamente selecionados para rendimento, mas sofrem de forma expressiva com o estresse térmico.

De acordo com o pesquisador Luiz Sergio Camargo, da Embrapa, o desconforto causado pelo calor traz prejuízos severos: eleva o intervalo entre partos, reduz os índices de concepção, afeta a fertilidade e pode comprometer a qualidade final dos alimentos. O foco do estudo consiste em elevar a tolerância térmica do rebanho sem perder o ganho genético já consolidado.

Testes iniciais com animais editados geneticamente apontaram reações fisiológicas e comportamentais distintas sob temperaturas elevadas quando comparados aos bovinos não modificados. Embora os dados ainda sejam preliminares, a fase seguinte da investigação pretende expandir o grupo fundador, avaliar a próxima geração e executar testes a campo em larga escala.

Avanços com células-tronco na reprodução assistida

Outra frente científica de destaque foca nas células-tronco embrionárias bovinas (conhecidas internacionalmente pela sigla ESC). A geneticista Anna Denicol, da Universidade da Califórnia em Davis (EUA), ressalta que as técnicas para cultivar essas células com estabilidade em ambiente laboratorial tiveram saltos decisivos a partir de 2018.

Essas estruturas celulares possuem grande valor biotecnológico devido à capacidade prolongada de autorrenovação somada ao potencial de diferenciação em tecidos especializados. O objetivo a longo prazo é a reprodução in vitro por meio da geração de espermatozoides e óvulos a partir de células-tronco, dispensando a necessidade de coletar gametas diretamente dos animais.

Apesar de o protocolo já apresentar resultados sólidos em camundongos, a aplicação em rebanhos bovinos ainda depende da elucidação completa das etapas de formação dos gametas antes de chegar ao campo.

Debate internacional em Campo Grande

Essas inovações estarão no centro das discussões do I Simpósio Internacional de Reprodução e Fertilidade em Gado de Corte (SIMFertCorte), agendado para 15 e 16 de outubro de 2026, no auditório do Sistema Famasul, em Campo Grande (MS).

O painel de abertura trará apresentações de Camargo sobre edição gênica aplicada à tolerância térmica e de Denicol sobre o estágio atual das células-tronco. A programação contará ainda com abordagens de Marcos Vinícius Barbosa (Embrapa) sobre a fertilidade genômica de touros, Arlindo Moura (Universidade Federal do Ceará) sobre os componentes moleculares do plasma seminal e Simon Lilico (Roslin Institute, do Reino Unido) tratando de edição gênica, consolidando o evento como uma vitrine de ponta para a pecuária sustentável e tecnificada.