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Letramento racial no jornalismo combate estereótipos e preconceitos

16 de outubro, 2026

O letramento racial é uma ferramenta essencial para identificar de que maneira palavras, imagens e decisões editoriais podem perpetuar preconceitos ou atuar no combate ao racismo. Tanto no jornalismo quanto na comunicação pública, a forma como fatos e indivíduos são retratados molda diretamente a visão da sociedade sobre os diferentes grupos populacionais.

O perigo dos estereótipos invisíveis na mídia

Frequentemente, uma reportagem pode propagar estereótipos mesmo sem qualquer intenção discriminatória por parte dos profissionais. Isso acontece quando pessoas negras figuram majoritariamente em pautas sobre pobreza, violência ou preconceito, enquanto suas funções como cientistas, gestoras, especialistas e profissionais de destaque recebem pouca visibilidade nos veículos de imprensa.

Por essa razão, incorporar o letramento racial exige rigor não apenas na apuração do texto, mas também na seleção das fontes ouvidas, na escolha do acervo fotográfico e nas narrativas que ganham espaço na mídia. As palavras carregam um peso histórico profundo, e expressões que vinculam a cor preta ou a população negra a atributos negativos acabam reforçando preconceitos se empregadas sem a devida reflexão crítica.

Contexto histórico e vieses inconscientes

Compreender a história é fundamental para perceber que as desigualdades raciais não ocorrem por acaso, mas refletem estruturas sociais que condicionam oportunidades e o tratamento dado aos cidadãos. Além disso, os vieses inconscientes — construídos através de vivências socioculturais — interferem na forma como um indivíduo é julgado ou ouvido, mesmo na ausência de dolo consciente.

A desembargadora Juanita Cruz da Silva Clait Duarte, que preside o Comitê de Promoção da Equidade Racial do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), enfatiza a relevância de analisar os impactos reais de uma conduta e o panorama histórico envolvido, indo muito além da mera intenção de quem a pratica.

Representatividade vai além da estética visual

Construir uma comunicação inclusiva exige ir muito além da mera presença de pessoas negras nas fotografias publicadas. É preciso observar quais papéis elas exercem nas histórias contadas e a pluralidade de vivências que representam na sociedade.

Uma imprensa verdadeiramente comprometida com a equidade racial deve colocar pessoas negras como protagonistas em diversas áreas profissionais e centros de decisão, rompendo com a limitação de retratá-las apenas em situações de vulnerabilidade. Essa premissa vale igualmente para órgãos públicos, responsáveis por divulgar direitos e políticas que impactam diretamente a percepção cidadã.

Ações práticas no poder judiciário

No âmbito do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, o comitê responsável promove capacitações constantes. Recentemente, equipes da Coordenadoria de Comunicação participaram de debates sobre terminologias, enquadramentos visuais e mensagens institucionais. O coordenador Álvaro Marinho aponta que a iniciativa aprimora a produção de conteúdo, permitindo reconhecer vieses ocultos e diversificar o perfil das fontes consultadas.

Aplicar o letramento racial no dia a dia exige uma postura analítica rigorosa durante todo o processo produtivo. Entre as medidas recomendadas estão:

– Revisar constantemente a linguagem para banir termos discriminatórios; – Diversificar fontes, garantindo a escuta de especialistas e profissionais negros de vários setores; – Selecionar imagens que fujam de estereótipos limitantes; – Expandir as narrativas para cobrir diferentes aspectos da vida em sociedade; – Mensurar os efeitos sociais das escolhas editoriais adotadas.

Em suma, o letramento racial transcende a simples substituição de palavras. Trata-se de cultivar uma visão crítica e consciente sobre cada elemento que compõe uma mensagem, fomentando um ecossistema midiático muito mais ético, respeitoso e representativo.