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Cortes em benefícios sociais ameaçam economia do interior

17 de outubro, 2026

O congelamento ou a redução de repasses federais como aposentadorias, Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) pode deflagrar uma forte retração econômica em centenas de cidades do interior brasileiro. Um estudo divulgado pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA-USP, aponta que esses programas são o principal motor financeiro de municípios menores e essenciais para a sobrevivência do comércio regional.

O peso das transferências públicas no comércio local

Dos 5.569 municípios existentes no país, cerca de 4 mil estão situados fora de regiões metropolitanas. Nessas localidades afastadas das capitais, o impacto proporcional das transferências públicas chega a dobrar. No Ceará, por exemplo, os auxílios e pensões correspondem a 22% da renda de Fortaleza e arredores, enquanto nos municípios do interior essa fatia salta para 40% de toda a renda agregada.

Para as famílias em situação de vulnerabilidade com rendimento de até 1,5 salário mínimo per capita, esses valores chegam a compor metade do orçamento doméstico. A co-diretora do Made-USP, Luiza Nassif, explica que esses recursos retornam instantaneamente à circulação monetária por serem direcionados quase que exclusivamente a itens de subsistência, sustentando postos de trabalho e a arrecadação de tributos municipais.

Projeções revelam risco de recessão regional

A pesquisa traçou cenários para os próximos anos, comparando os efeitos da política de valorização real adotada entre 2022 e 2025 com o modelo de congelamento aplicado entre 2019 e 2022. Os dados revelam que uma eventual interrupção nos ganhos reais faria a renda total do interior encolher entre 6,8% e 10,8%, gerando um efeito dominó que prejudica até mesmo quem não depende de assistência governamental.

Estados mais vulneráveis à retração

As perdas seriam desiguais entre as unidades da federação. Os índices mais alarmantes foram calculados para o interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, com quedas estimadas entre 17% e 18% na renda global. Na sequência aparecem Amazonas, Sergipe e Pernambuco, com retrações próximas de 15%. Em estados como Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia, o recuo ficaria entre 10% e 13%, ao passo que regiões do Centro-Sul sofreriam perdas de até 6,5%.

Impacto direto no avanço da pobreza extrema

Além da desaceleração econômica, a defasagem dos auxílios em relação à inflação teria consequências sociais severas. As simulações indicam que a ausência de aumentos reais resultaria na entrada de aproximadamente 2,7 milhões de brasileiros na linha da pobreza em áreas não metropolitanas, sendo 2,4 milhões empurrados para a extrema pobreza.

Em números absolutos, o contingente de novos desvalidos seria liderado pela Bahia (336 mil pessoas), seguida por São Paulo (263 mil), Minas Gerais (251 mil), além de Maranhão, Pará e Ceará, todos superando a marca de 200 mil indivíduos atingidos. Especialistas alertam que assegurar ganhos reais para a previdência e transferência de renda é condição primordial para resguardar a dignidade das famílias e preservar a vitalidade econômica no Brasil profundo.