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Mariana: rejeito de minério desequilibra população de abelhas

17 de outubro, 2026

Os sedimentos liberados pelo rompimento da barragem de Fundão continuam alterando profundamente a dinâmica ambiental da bacia do Rio Doce. Uma pesquisa científica multidisciplinar descobriu que as áreas devastadas pela lama apresentam uma densidade de abelhas superior à de matas preservadas, um fenômeno que, longe de indicar recuperação, sinaliza uma grave desordem ecológica.

Ilusão de abundância e predomínio de espécies generalistas

Ao todo, os pesquisadores contabilizaram 10.721 espécimes divididos em 88 espécies e cinco famílias biológicas. Nos pontos cobertos pela lama de minério, a média alcançou 197 indivíduos por amostragem, superando a taxa de 160 insetos observada nas florestas conservadas. A quantidade média de espécies por localidade foi similar: 14 nas áreas danificadas contra 12 nos trechos intactos.

Contudo, a composição dessa fauna revela o impacto real do desastre. Os locais degradados foram dominados por abelhas generalistas, insetos altamente adaptáveis que se alimentam de variadas fontes de pólen e néctar. Em contrapartida, as espécies especialistas — que dependem exclusivamente de plantas nativas específicas varridas pelo rejeito — desapareceram dos trechos atingidos, restringindo-se aos refúgios preservados.

O levantamento foi realizado por cientistas do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (Biodiv), em cooperação com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de Oxford, Universidade de São Paulo (USP), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e o Instituto Nacional de Biodiversidade do Equador.

Inversão climática e concentração no período seco

A investigação também detectou uma anomalia temporal na atividade dos polinizadores. Em florestas tropicais, o pico de ocorrência costuma coincidir com a estação chuvosa. Na área afetada pelo desastre de Mariana, no entanto, os registros se inverteram: foram capturadas 4.165 abelhas durante a seca e apenas 1.754 ao longo do período chuvoso.

Segundo a bióloga Kamilla Castelan, que liderou os trabalhos de campo, a escassez floral na estiagem obriga as abelhas a realizarem deslocamentos mais longos em direção às ilhas de vegetação nativa remanescentes. Além disso, a ausência de enxurradas nesse período impede que os ninhos terrestres sejam inundados.

A importância dos refúgios florestais e o obstáculo no solo

A presença de fragmentos florestais conservados em um raio de até 500 metros provou ser o fator decisivo para a subsistência dos polinizadores. Essas matas remanescentes funcionam como santuários essenciais, provendo alimento ininterrupto e cavidades nos troncos de árvores adultas para abrigo e reprodução.

Se as copas das árvores garantem a sobrevivência dos insetos aéreos, a camada superficial do terreno tornou-se uma barreira hostil. O rejeito de mineração provocou uma severa compactação do solo, impedindo que espécies que nidificam embaixo da terra consigam perfurar o chão para construir seus ninhos.

Diretrizes para a recomposição da bacia do Rio Doce

Para viabilizar a recuperação definitiva das interações ecológicas na região, os autores da pesquisa defendem que a conservação das matas ciliares nativas sobreviventes deve ser tratada como prioridade inegociável. Além disso, as iniciativas de restauração não podem se ater apenas ao reflorestamento: é urgente investir em técnicas de manejo físico que descompactem a terra endurecida pelo minério e restabeleçam as características naturais do solo.