Pesquisa transforma lodo de saneamento em fertilizante agrícola de alta eficiência

Uma inovação tecnológica desenvolvida no país conseguiu converter os resíduos gerados em estações de tratamento de água em um adubo de alta eficiência, capaz de fornecer nutrientes de forma gradual às plantações. O avanço é fruto de um trabalho conjunto entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), que uniram forças para solucionar um passivo ambiental complexo.
Como o resíduo vira insumo agrícola
O grande desafio do material descartado pelas estações sempre foi a presença de substâncias problemáticas, a exemplo de elevadas concentrações de sais de alumínio e escassez de matéria orgânica. Para neutralizar o elemento tóxico que prejudica o desenvolvimento das raízes, a equipe científica aplicou um método hidrotérmico sob rigoroso controle de temperatura e pressão.
Esse procedimento reorganiza a estrutura química do subproduto, gerando cristais de sodalita. Esse mineral específico atua aprisionando o alumínio e impede que ele contamine o ambiente. Na sequência, o composto recebe adições de potássio e nitrogênio, transformando-se em grânulos que liberam os elementos nutritivos lentamente no solo, otimizando a absorção pela vegetação.
Ganhos expressivos na biomassa
Avaliações conduzidas em unidades da Embrapa Pecuária Sudeste, no interior paulista, demonstraram que o adubo tecnológico traz vantagens nítidas para o desenvolvimento vegetal. Em plantações de azevém, o rendimento agronômico chegou a ser até três vezes maior quando comparado ao grupo de referência, enquanto plantios de capim-piatã também registraram incrementos positivos na produtividade.
Outro diferencial importante apontado pelos especialistas é a capacidade da estrutura zeolítica em segurar o nitrogênio, o que evita a volatilização de gases e mantém o elemento à disposição das raízes por muito mais tempo. Essa característica ajuda a mitigar a alta dependência externa do setor agrícola nacional por insumos importados.
Redução de custos e microrganismos benéficos
Do ponto de vista do saneamento, o reaproveitamento surge como alívio financeiro e logístico. Somente a Sabesp produz anualmente cerca de 124 mil toneladas de resíduos desidratados em suas centrais de tratamento espalhadas pelo estado, gerando despesas logísticas expressivas para o transporte até aterros sanitários.
Além da função nutricional, os testes indicaram que os grânulos conseguem abrigar bactérias benéficas, como a Bacillus megaterium, que permaneceu viável por quase cinco meses e auxilia no estímulo ao crescimento das lavouras.
Próximos passos rumo à industrialização
O projeto exigiu quatro anos de estudos e aportes superiores a R$ 2,7 milhões, contando com o respaldo da Fapesp. No momento, os cientistas buscam investidores do setor privado para viabilizar a criação de uma planta-piloto industrial.
Antes de chegar ao mercado, a inovação ainda precisará vencer etapas regulatórias junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para obter o registro oficial. Caso todas as fases sejam superadas, a novidade representará um marco na economia circular, unindo o saneamento básico e a produção de alimentos de forma sustentável.

