Com cerca de 22 mil habitantes e localizada a aproximadamente 65 quilômetros da capital paulista, a cidade de Bom Jesus dos Perdões não contava com nenhum comércio de livros até meados da década passada. Esse cenário começou a mudar radicalmente com a criação da Casa do Leitor, espaço independente que superou o ceticismo regional para se transformar em polo de convivência, literatura e pensamento crítico.
Da garagem universitária ao polo cultural
A iniciativa partiu dos psicólogos Guilherme Moura e Fernanda Miquelino. Diante da ideia recorrente de que o município não tinha demanda por atividades intelectuais, o casal decidiu apostar no setor. O embrião do negócio surgiu ainda durante a graduação de Guilherme, que vendia títulos pela internet para custear seus estudos e mantinha um estoque improvisado em uma garagem.
Em 2016, com a liberação do piso superior do imóvel, os dois fundaram a loja física. Mais do que comercializar obras, o objetivo principal era estabelecer um ambiente de encontro para a comunidade. A inauguração oficial contou com a participação do professor e psicanalista Christian Dunker, momento em que os proprietários confirmaram a carência e o interesse da população por ações formativas.
Debates de relevância e integração comunitária
Desde sua abertura, o estabelecimento ampliou expressivamente seu leque de atrações. O cronograma local abrange desde lançamentos de obras e feiras de discos de vinil até sessões de cinema, encontros com grupos de mulheres e intervenções com idosos residentes em asilos.
Ao longo da trajetória, personalidades de destaque nacional marcaram presença na casa, incluindo o padre Júlio Lancellotti, os jornalistas Juca Kfouri e Marcelo Rubens Paiva, o sociólogo Jessé de Souza e autores como Aline Bei, Pedro Bandeira e José Roberto Torero.
O ambiente atrai um público intergeracional diversificado. Entre os participantes habituais está a doutora em psicologia da educação Magda Machado Ribeiro Venancio, de 72 anos, residente no município há mais de três décadas, que destaca a pluralidade trazida pelo projeto. O espaço também atrai frequentadores de municípios vizinhos, como o jornalista Mario Casimiro Gonçalves, de 31 anos, morador de Atibaia que enxerga o endereço como um ponto de resistência cultural e difusão de ideias.
Impacto na rede pública e planos futuros
A influência da livraria estendeu-se também às salas de aula da rede municipal. Segundo o secretário de Educação local, Ricardo Augusto Pontes Moraes, parcerias pedagógicas desenvolvidas em 2025 beneficiaram 240 alunos do 5º ano em cinco colégios da cidade, proporcionando avanços sensíveis na interpretação de textos e no estímulo ao hábito de ler.
Com programação já preenchida até o mês de novembro, o espaço busca agora ampliar a sustentabilidade de suas operações. Conforme aponta Guilherme Moura, os principais desafios residem na necessidade de maior apoio do poder público, captação de recursos e ampliação da equipe, fatores fundamentais para manter viva a única livraria em atividade no município.









